Demoliram os letreiros de Hollywood

Dia 21 outubro de 2019; dois dias após uma das festas mais lindas que já tivemos no casarão, estou sentada em meu sofá em uma tarde nublada tentando descansar e digerir a sensação de impotência que eu senti vendo os letreiros de Hollywood serem demolidos em meus pés. Foi a festa mais linda e a mais decepcionante desde o início da Voluptas.

Tudo pronto, nada de atrasos ou intercorrências exceto a tensão que eu sentia por causa de um sonho que havia tido antes da festa. Sonhei que todos chegavam e eu estava desprevenida vestida com meu pijama. Acordei assustada e pensei:

- Porque será que eu sonhei isso?

Não sou muito mistica, o que me fez não dar ouvidos para um possível aviso do meu subconsciente dizendo que eu deveria ter me preparado melhor para algumas situações que estariam por vir (nada sobrenatural).

 

A festa? Foi linda! Era uma energia transcendental que circulava entre todos. Juntos e engajados à fazer daquela noite a mais memorável possível. Os recém chegados na Voluptas recebam meus parabéns, pois vocês foram incríveis, inclusive os mais introspectivos! Todos contribuíram para que a Hollywood fosse um sucesso...

Muitas conversas, risadas, brincadeiras, beijos e depois de tudo muita interação nos quartos. Muita mesmo! Lindos por fora mas principalmente por dentro, fizeram da minha noite um sonho realizado. Singles educados e carismáticos, casais bem resolvidos, veteranos se reencontrando com muito amor e satisfação e pessoas se conhecendo. Nada poderia estar mais perfeito. O serviço de jantar foi muito bom porém com algumas pequenas falhas. Nada que na próxima não possamos melhorar. Minha única ressalva foi que eu comi pouquíssimo gnocchi. Terei que comer isso por um ano agora pois sobrou muito! Foi tanta comida servida na festa, que quando chegou na massa ninguém conseguia comer mais nada.

 

Eram 07h30 da manhã quando eu tranquei as portas do casarão. Dei uma varrida na sala, recolhi alguns copos que sobraram e fui tomar um banho bem quente; eu estava acordada e em pé desde as 08h00 de sábado. Me deitei com certa dificuldade para pegar no sono prevendo o que aconteceria depois. Quando acordei depois de algumas horas de um sono profundo e após alguns sonhos perturbadores, cumpri minha missão como se nada tivesse acontecido como eu sempre faço depois de cada festa. Como sempre contei com alguns amigos que ficaram para me ajudar, e é claro, minha equipe de Staff é perfeita. Tudo fica quase 90% limpo e organizado quando acaba a festa.

 

Recolhi todas as nossas coisas. Decoração, móveis, ítens...

Enquanto varria todo o casarão junto com meus parceiros, eu lembrava da festa.  (é surpresa para vocês? Sim, a faxineira da Voluptas pós-festa também sou eu)!

Eu recolho junto com meus prestadores de serviço e amigos as camisinhas jogadas no chão - lamentável ter que recolher isso! Quando eu pedia respeito à vocês para nossos "funcionários", eu também implorava por respeito. Mas porque eu limpo junto com eles? Porque eu não tenho coragem de pedir para alguém fazer isso e simplesmente ficar olhando. Minha sociedade, minha responsabilidade. A sujeira dela eu também limpo com minhas mãos com o maior prazer. E não vejo mal nenhum em fazer isso, aliás acho muito digno!

Naquela noite eu contatava com 20 prestadores de serviço no staff. Uma equipe incrível que merece meu agradecimento. 

 

Não tenho ilusão que irão me respeitar à partir de agora, pois não existe diferença alguma entre uma faxineira e eu. Somos todas iguais! Eu aprendi desde criança que você conhece uma pessoa pela forma que ela trata uma pessoa subordinada. Vir até mim e elogiar pela criação da Voluptas dizendo o quanto ela é especial e jogar o preservativo usado no chão ou fazer squirt no teto ou em cima de outros membros só mostra exatamente o tipo de respeito que vocês tem pelas pessoas. Palavras bonitas não mudam fatos e eu estou cansada de hipocrisia. Vou citar um trecho de Racionais Mcs, na música Capítulo 4 Versículo 3: "Seu carro e sua grana já não me seduz, e nem a sua puta de olhos azuis"

 

A festa estava linda sim. Todos riam para todos...

No "canto da escuridão", onde ninguém pudesse me ver, eu ouvia as conversas em burburinho. Tudo chega em meus ouvidos mesmo que eu não esteja ali.

Teve gente falando mal do corpo e da aparência de algumas pessoas como se toda história e cicatriz que ela carrega dessa vida, valesse menos do que o caviar que eu servia naquela noite para meus convidados.

 

Servimos também almondegas no jantar, e para quem não sabe elas são feitas de carne moída. Sim, carne moída! E graças à carne moída, muita mãe nesse mundo sustenta os filhos, o que chega ser luxo em algumas mesas; alguns tem só farinha e água pra fazer mingau para o bebê parar de chorar, e eu sei o que é não ter carne moída para comer, pois já passei necessidades por muito tempo. Caviar nenhum vai ter mais valor do que a almôndega que minha avó fazia pra mim quando criança. E olha que tinha caviar pra enjoar!

 

Eu ia para a escola com a calça molhada no corpo que não teve tempo de secar no varal, pois eu só tinha uma. Era ir suja ou molhada! Eu tinha vergonha de levantar da cadeira na sala de aula pois ficava a marca da calça quando eu levantava. Aos 10 anos eu usava a bota da minha mãe tamanho 38 calçando 39, com os pés cheios de bolhas, pra andar 5km até chegar na minha escola pois não tinha grana nem para ônibus e nem pra um sapato novo.

Eu sou muito grata por ter passado isso. Aprender a dar valor para as coisas e não ser fútil não tem preço!

 

Ouvir alguém dizer "Credo, que nojo! Eu não como carne moída "é o mesmo que dar um tapa na minha cara! Não querer comer por ser vegano, #tamojunto. Dizer que não come pois é "pobre" demais pra você, só mostra que você é tão pobre, mas tão pobre, que a única coisa que você tem é dinheiro!

E que fique claro que em nossa sociedade temos pessoas com muito dinheiro e pouco dinheiro. O que define se as pessoas ficarão entre nós é o nível cultural delas, a educação e o respeito. Nunca o que elas tem ou deixam de ter.

 

A festa foi linda sim, mas eu fiquei triste vendo atitudes inconsequentes.

Tive que banir um casal que está conosco desde o início da Voluptas e que eu pessoalmente, amo demais. Foi o banimento mais doloroso que tive que fazer em toda a história da Voluptas. Para que vocês possam imaginar o tamanho da dor, eu preferia que meu próprio marido tivesse cometido esse erro.

Durante o calor do momento eles foram para a varanda transar. Meu segurança os orientou à entrar. Eles foram mais uma vez para fora. Meu segurança mais uma vez solicitou para que entrassem... Na terceira vez eu mesma tive que intervir, mas o estrago já tinha sido feito. A sociedade inteira viu, os vizinhos, o dono da casa que mora ao lado e todos ao redor.

Infelizmente essa é a última vez que fizemos festa nesse casarão, pois eu não tenho mais cara nem coragem de olhar para os donos.

 

Liberdade é diferente de libertinagem! E eu criei a Voluptas pra mostrarmos ao mundo que "moralidade" não tem relação com a ética, e onde falta a ética sobrepuja um opróbrio. E lá se vão os letreiros de Hollywood...

De que adianta dinheiro, cultura, luxo e caviar se não temos o que é mais valioso no mundo todo, a empatia que eu tanto falo?

 

Queridos Voluptianos, somos como um jogo de xadrez:

 

Imaginem quatro pilares apoiando o tabuleiro, um em cada ponta. No centro mais um pilar para dar a sustentação. Os quatro pilares do canto representam meu esposo, eu, minha equipe de moderação e os prestadores de serviço da Voluptas. O pilar do centro representa o poder do desejo de cada membro da sociedade. Todas as peças do jogo são vocês em cima do tabuleiro! Uns com mais força e outros com menos, mas todos peças.

 

Imaginaram?

 

Agora imaginem todas as peças em cima do tabuleiro prontas para o jogo começar.

Se o desejo de vocês (no caso o pilar do centro) derrubar só a mim (uma coluna em um dos cantos), o Ed junto com os moderadores e a equipe irão segurar a sociedade inteira com certeza. O tabuleiro não vai desestabilizar pois eu sou só um elemento de toda a base que segura o tabuleiro.

 

Se qualquer um dos outros pilares forem derrubados um por vez, ainda sim conseguimos segurar todos as peças em cima da tabuleiro e o jogo vai continuar.

Agora se o desejo primitivo e instintivo de vocês derrubarem todos nós, todas as peças irão cair. E nada irá mudar isso. O desejo de vocês irá manter todos firmes.

Como disse uma grande amiga durante meu desabafo: Inês já é morta! Não tem mais o que fazer. Temos só que superar! 

 

Eu espero que esse post toque no coração de cada um de vocês, principalmente aqueles que querem que a Voluptas continue existindo.

 

A festa? Sim ela foi linda. E as outras vão continuar sendo, tenho certeza. Mas uma pergunta que eu eu não consigo parar de me fazer agora é:

-Será que vale a pena me expor de cara limpa por todos vocês?

Não sei...

 

Finalizo esse post com uma frase de Melody Beattie:

"A gratidão desbloqueia a abundância da vida. Ela torna o que temos em suficiente, e mais: ela torna a negação em aceitação, caos em ordem, confusão em claridade. Ela pode transformar uma refeição em um banquete, uma casa em um lar, um estranho em um amigo. A gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz para o hoje, e cria uma visão para o amanhã."

 

Sejam Ubuntu* e a Voluptas irá existir eternamente, com ou sem mim.

 

Abraços e até breve.

 

 

 

 

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